Pastor confunde Zumbi com exu e insufla evangélicos em rádio

Pastor confunde Zumbi com exu e insufla evangélicos em rádio
Rádio 88, do deputado evangélico Albertassi, faz debate para tirar escultura feita por operário da CSN em homenagem ao maior herói negro do país




O missionário trocou as estátuas



Exu dos Ventos, obra de Mário Cravo, na Linha
Amarela, no Rio de Janeiro

Paulo Dimas



Escultura de Zumbi, de Rogero Masson, na Vila
Santa Cecília, em Volta Redonda
Volta Redonda/RJ



Uma confusão feita pelo missionário evangélico Mário Dias a respeito da escultura do Memorial Zumbi - erguida na Vila Santa Cecília em 1990 - acabou provocando polêmica entre os evangélicos. O missionário confundiu a estátua de Zumbi dos Palmares com a escultura de Exu dos Ventos, que fica na Linha Amarela, no Rio de Janeiro. O fato foi levantado ontem pela manhã em um programa da Rádio 88 FM, do deputado estadual Edson Albertassi (PSC), comandado pelo radialista Dário Ferreira. Segundo o missionário, a entidade poderia ser responsável por influências maléficas ao município, "promovendo discórdia nos lares e empresas". O assunto provocou a revolta dos ouvintes evangélicos e de pastores, que chegaram a cogitar a possibilidade de um protesto pela retirada do monumento.
"Volta Redonda terá um memorial a satanás", disse o radialista e pastor Dário Ferreira, depois de indagar os ouvintes se eles iriam ficar parados ou se iriam promover vigílias, passeatas e protestos contra o monumento, que existe há 14 anos.
Durante a discussão, vários ouvintes participaram emitindo sua opinião sobre a questão. Um deles, o pastor Robson Lara, chegou a afirmar que o monumento "representava a retaliação do inferno se levantando", já que, segundo ele, no município existem hoje mais de 60 mil evangélicos. "A fúria do satanás está tentando frear a fúria da igreja", disse ele no programa.

HOMOSSEXUAIS - Segundo disse o missionário, ainda durante o programa, a entidade teria influência sobre os homossexuais, o que explicaria a grande presença de gays no Candomblé. Ele chegou, inclusive, a fazer relação entre o número de homossexuais em Volta Redonda e a escultura do Memorial, dizendo que isso pode ter gerado "uma influência no grande número de homossexuais no município".
Mais tarde, em entrevista ao DIÁRIO DO VALE, o missionário Mário Dias voltou atrás e disse não ter nenhum envolvimento com o caso, já que é do Rio de Janeiro e está em Barra Mansa há menos de três meses. Segundo Dias, ele foi contactado pela Rádio 88 FM para explicar o que a escultura significava, já que antes de se converter, praticava o candomblé durante 32 anos.
"É muito complicado falar sobre isso, já que o Exu dos Ventos é uma entidade de expansão, que pode ser tanto para o bem, como para o mal. (...) Mas para o evangélico, independente da maneira que os outros vêem, essas entidades são demoníacas e pretendem destruir o ser humano", explicou ele.

Pastores dizem que reforma chamou atenção de evangélicos

Durante o debate da Rádio 88 FM, a reforma do Memorial Zumbi, que será reinaugurado no próximo dia 21 com a presença do ministro da Cultura, Gilberto Gil, também foi lembrada pelo radialista Dário Ferreira. Segundo ele, o Exu, apesar de já instalado na cidade desde 1990, "será inaugurado com outros artefatos", o que, para o missionário Mário Dias e alguns pastores, pode ter chamado atenção dos evangélicos.
Os "artefatos" aos quais o radialista se refere são as reformas feitas pelo governo municipal em torno do monumento. Entre elas está uma cerca de ferro com simbologias da cultura africana, tal como o machado de Xangô e adereços de Iansã que, segundo um dos dirigentes do Memorial, Sérgio Gabriel dos Anjos, nada tem a ver com as lanças de São Jorge ou qualquer outro tipo de reverência à entidade de Exu dos Ventos. "Se não pudermos nos manifestar, isso significa intolerância religiosa", criticou ele.
Durante o debate, o radialista e o missionário atribuiram tais símbolos da grade de ferro a ferramentas e oferendas à entidade do Candomblé. Segundo Mário Dias, essa entidade é como se fosse uma demarcação de terreno, um selo de propriedade para que a área passe fazer parte de sua atuação. "O problema é que se isso fosse em um centro é uma coisa. Agora, colocar essa imagem em uma área pública, é diferente. Os evangélicos se sentiram ofendidos com isso", comentou ele.
A opinião é compartilhada pelo pastor Wilson dos Anjos, presidente do Conselho de Pastores de Volta Redonda. Segundo o pastor, ele não está contra a cultura negra, no entanto, não acha correto que o monumento de uma religião específica seja colocado em um espaço público. "É uma questão de espiritualidade", defendeu Wilson dos Anjos.
No entanto, ao ser indagado por que os evangélicos não se manifestaram anteriormente sobre o monumento, que existe há 14 anos, o pastor disse que a reforma do espaço foi o que chamou sua atenção. "Algumas coisas acontecem e nem a população fica sabendo. Quando tomamos conhecimento, elas já aconteceram", disse ele, comentando que irá reunir a comunidade evangélica para discutir o assunto. "Vamos ver se iremos enviar um ofício para prefeitura ou se faremos uma passeata para protestar quanto a isso. Mas não ficaremos omissos a esse fato", afirmou Wilson dos Anjos .

Autor da obra diz que polêmica foi fruto de 'mentes férteis'

O autor da obra erguida no Memorial Zumbi há 14 anos, o arquiteto e artista plástico Rogero Masson, disse ontem ter achado estranha a relação feita entre o monumento e a entidade Exu dos Ventos. Segundo ele, sua obra denota apenas Zumbi dos Palmares de braços abertos, caracterizando a liberdade do povo negro. "Isso é que é mente fértil", brincou ele.
A obra, segundo Masson, foi feita por ele após vencer um concurso público promovido pela prefeitura em 1989, durante o governo de Wanildo de Carvalho. De acordo com ele, o monumento, feito de aço, foi criado com total autonomia, depois de várias pesquisas sobre outros escultores, entre eles o espanhol Miró. Ele disse ainda não ter sofrido nenhuma influência em sua obra do escultor baiano Mário Cravo, autor de uma escultura do Exu dos Ventos, colocada na Linha Amarela, no Rio, durante o governo de Luiz Paulo Conde, que veio a gerar polêmica no município. "Achei muito estranho essa comparação, foi uma deturpação", observou Masson.
Segundo um dos dirigentes do Memorial, Edson Daniel João, a obra, que foi uma solicitação dos movimentos negros no município, apenas tem como finalidade resgatar e difundir a cultura africana na cidade. "Eles estão tentando deturpar esse significado", ressaltou ele.

AUTOR - Rogero Masson, é nascido em Juiz de Fora (MG) e está em Volta Redonda há 28 anos. Ele é católico e disse não ter sofrido qualquer influência da religião do Candomblé.

Prefeito Neto diz que polêmica foi leviana

Durante uma reunião ontem, com dirigentes do Memorial Zumbi, o prefeito Antônio Francisco Neto (sem partido) lamentou que, com a proximidade das eleições, uma "emissora de rádio com penetração tão grande perante aos evangélicos tenha colocado, levianamente, em discussão um assunto e uma comparação que nada têm a ver com divindades religiosas".
O prefeito disse ainda que prefere não acreditar que esta seja uma manobra política do dono da rádio, o deputado estadual Edson Albertassi (PSC), que apóia o pré-candidato Paulo Baltazar (PSB) à prefeitura. "Quem terá que explicar isso, até de forma pouco convincente, são eles", disse Neto, a respeito do assunto, comentando que os pastores que levantaram a polêmica foram induzidos ao erro.
O prefeito disse ainda que seu governo foi eleito por todos e que ele governa para todos, sem preconceitos. "Os espaços públicos da cidade estão à disposição de todos e continuaremos a manter uma boa relação com todos para que prevaleça a democracia na cidade", ressaltou ele, lembrando que a obra foi erguida no governo de Wanildo de Carvalho, mantida por Baltazar quando prefeito e que continuará em seu governo. E acrescentou: "Isso tudo não passa de boato, essa polêmica próxima à reinauguração do monumento talvez seja por falta de informação".

Albertassi nega interesse eleitoral com discussão

O proprietário da Rádio 88 FM, o deputado estadual Edson Albertassi, disse que a polêmica em torno do assunto nada tem a ver com eleições mas, sim, com a visibilidade que o Memorial Zumbi teve em decorrência de sua reinauguração. Segundo ele, sua rádio é um espaço democrático, aberto a qualquer discussão. "A mesma rádio que faz esse debate também abre espaço há oito anos para o prefeito Neto, inclusive para falar bem de seu candidato (Gotardo Netto) e mal do meu (Baltazar)", argumentou ele.
Na avaliação do parlamentar, as mudanças propostas ao memorial - principalmente as supostas lanças de São Jorge na grade do espaço - podem ter chamado a atenção da população. "O fato é que é polêmico, quem fez a escultura deveria imaginar(...) Fazer um memorial com coisas que não agradam a ninguém é complicado", opinou ele, alegando que ele mesmo foi uma das pessoas que tomou conhecimento do significado da escultura há pouco tempo. E acrescentou: "Da mesma forma, as pessoas podem não ter notado isso antes".
Albertassi disse ainda ter ficado triste com o fato de o prefeito Neto tê-lo caracterizado como leviano. Segundo o deputado, apesar de ter o controle de seu veículo de comunicação, os assuntos em pauta também são decididos por sua equipe. "A rádio não está forçando nada, quem emite opinião são as pessoas", finalizou ele.


Jornal DIARIO DO VALE
16/06/2004
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