Catequese
Simbolos da Quaresma
Fonte: Doutrina Catolica
Transmissão: Augusto Cesar Ribeiro Vieira
Conheça os símbolos da quaresma e seu significado:
cinza, deserto, 40 dias, jejum, etc.
A CINZA
É o resíduo da combustão pelo fogo das coisas ou das pessoas. Este símbolo já se usa na primeira página da Bíblia quando nos conta que "Deus formou o homem com o pó da terra" (Gen 2,7). Isso é o que significa o nome de "Adão". E se lhe recorda em seguida que esse é precisamente seu fim: "até que voltes à terra, pois dela foste criado" (Gn 3,19).
Por extensão, pois, representa a consciência do nada, da nulidade
da criatura com respeito ao Criador, segundo as palavras de Abraão: "Embora
sou pó e cinza, me atrevo a falar ao meu Senhor" (Gn 18,27).
Isto leva a todos a assumir uma atitude de humildade ("humildade" vem de húmus, "terra"): "pó e cinza são os homens", "todos caminham para uma mesma meta: todos saem do pó e todos voltam ao pó", "todos expiram e ao pó retornam". Por tanto, a cinza significa também o sofrimento, o luto, o arrependimento. Em Jó (Jó 42,6) é explicitamente sinal de dor e de penitência. Daqui se desprendeu o costume, por largo tempo conservado nos monastérios, de estender os moribundos no solo coberto com cinza posta em forma de cruz. A cinza se mescla as vezes com os alimentos dos ascetas e a cinza abençoada se utiliza em ritos como a consagração de uma igreja, etc.
O costume atual de que todos os fiéis recebam em sua frente ou em sua cabeça o sinal da cinza ao começo da Quaresma não é muito antigo.
Nos primeiros séculos se expressou com este gesto o caminho Quaresmal dos "penitentes", ou seja, do grupo de pecadores que queriam receber a reconciliação ao final da Quaresma, a Sexta-feira Santa, as portas da Páscoa. Vestidos com hábito penitencial e com a cinza que eles mesmos se impõem na cabeça, se apresentavam ante a comunidade e expressavam assim sua conversão.
No século XI, desaparecida já instituição dos penitentes como grupo, se viu que o gesto da cinza era bom para todos, e assim, ao começo deste período litúrgico, este rito que começou a realizar para todos os cristãos, de modo que toda a comunidade se reconhecia pecadora, disposta a aprender o caminho da conversão Quaresmal.
Na última reforma litúrgica se reorganiza o rito da imposição da cinza de um modo mais expressivo e pedagógico. Já não se realiza ao princípio da celebração ou independentemente dela, sendo depois das leituras bíblicas e da homilia. Assim a Palavra de Deus, que nos envia esse dia à conversão, é a que da conteúdo e sentido ao gesto.
Além do mais, se pode fazer a imposição das cinzas fora da Eucaristia - nas comunidades que não têm sacerdote -, mas sempre no contexto da escuta da Palavra.
O DESERTO
Geograficamente falando, é um lugar despovoado, árido, só, inabitado, caracterizado pela escassez de vegetação e pela falta de água.
É o lugar onde transcorre o jejum, considerado como solidão exterior
e interior, para levar, ao que nele se interna, par a união com Deus.
Os textos bíblicos em que se fundamenta esta afirmação são os quarenta dias de Moisés sem comer nem beber no monte Sinai para receber a Lei (Ex 24, 12-18; 34) e os quarenta dias de Elias (1 Re 19,3-8). Elias vive a dureza do deserto reconfortado pela comida e bebida misteriosa, e recorre seu caminho superando o declínio dos israelitas nos quarenta anos de marcha para a terra prometida. Se trata, em todos os casos, de homens marcados pela visão de Deus ao final do dito caminho. Estas narrações nos ajudam a entender o sentido dos quarenta dias de deserto de Cristo (Primeiro Domingo de Quaresma), vivido como experiência da tentação e encontro íntimo com o Pai, mas, também, como preparação a seu ministério público.
Para a Bíblia, o deserto é, também, uma época de oração intensa. É o lugar do sofrimento purificador e da reflexão. Embora também e uma graça que pode ser rejeitada.
O jejum de Moisés contrasta com a rejeição dos quarenta anos de deserto por parte do povo. Os quarenta dias de Moisés são o refazer um caminho de fidelidade que o povo não soube andar, assim como os de Cristo o são para a prova que o Espírito Santo permitia ao tentador (Mt 4, 1).
O deserto é a geografia concreta, o espaço e o tempo da união com Deus. Por isso Oséias (Os 2, 16-17) o propõe como o lugar propício para captar sua mensagem espiritual, igual o que faz a Igreja com seus filhos na Quaresma.
Muitas vezes em nossa vida cotidiana nós rejeitamos esses espaços de silêncio e solidão porque temos medo de nos encontramos com nós mesmos e com Deus e descobrir que longe estamos de seu projeto sobre nós. Por isso, o " deserto" requer coragem dos humildes, dos que não têm medo de começar novamente...
OS QUARENTA DIAS
A organização Quaresmal é um tempo simbólico que faz suas raízes no Antigo e no Novo Testamento. Os quarenta dias de Moisés e de Elias ou os quarenta anos do Povo eleito no deserto não são referências secundárias. A tradição judeu-cristã tem visto neste número um determinado significado. Provavelmente a idéia mais antiga seja a referência aos anos de deserto vistos como um tempo associado ao castigo de Deus (cf. Nm 14,34; Gn 7,4. 12. 17; Ez 4,6; 29, 11-13).
Em Deuteronômio aparece uma interpretação dos quarenta anos
como o tempo da prova à que Deus somente ao povo (Dt 2,7; 8,2-4). São
os dias do crescimento da fé, segundo o Salmo 94, 10. Para os Atos dos
Apóstolos, o número quarenta continua sendo simbólico.
Lucas divide a vida de Moisés em três períodos de quarenta
anos (At 7,23 e 7,30); faz referência aos quarenta anos do reinado de
Saul (At 13,21); e aos quarenta dias da Ascensão (Atos 1, 3).
Estes quarenta dias poderiam, então, considerar-se como esse "hoje" do que fala a Carta aos Hebreus ao referir-se ao Sal 94, como esse "tempo propício" para escutar a voz de Deus e não endurecer o coração.
Em efeito, nossa relação com Deus necessita não só de um "espaço" adequado (o deserto como lugar de silêncio), sendo também de um "tempo" oportuno e concreto, "suficiente" para escutar, através de nossa consciência, sua voz de Pai que corrige e consola.
O JEJUM
Junto com o deserto e a oração, o jejum parece ser uma das mediações privilegiadas de todo tempo penitencial, de revisão de vida e de busca sincera de Deus. Por isso, como temos visto ao referir-nos ao deserto, geralmente vão unidos. Todos os que se retiram ao deserto para encontrar-se com Deus, jejuam.
Não obstante, os profetas Joel e Isaías nos indicam o verdadeiro
sentido desta antiga prática penitencial:
... Voltam a mim de todo coração, com jejum, prantos e lamentos. Desgarrem seu coração e não suas vestes, e voltem para o Senhor, seu Deus. (Joel 2, 12-18)
Este é o jejum que eu amo, oráculo do Senhor: soltar as correntes injustas, desatar os laços do jugo, deixar em liberdade aos oprimidos e romper todos os jugos; compartilhar teu pão com o faminto e abrigar aos pobres sem teto; cobrir ao que vês nu... (Isaías 58, 6-9)
À luz de suas palavras, compreendemos porque, com o tempo, o jejum como abstenção de comida tem cedido lugar ao jejum como símbolo e expressão de uma renúncia a tudo aquilo que nos impede realizar em nós o projeto de Deus, convidando-nos a transformá-lo em um gesto de solidariedade efetiva com os que passam fome, trabalhando pela eliminação de toda injustiça na vida pessoal e social, e pela liberação de toda opressão e corrupção.
Naturalmente, seria mais fácil nos limitarmos a "cumprir" com o jejum de alimentos proposto pela Igreja. Mas necessitamos descobrir esses "outros" jejuns como meio adequado para mudar o que mais nos custa. Talvez se trate de falar menos, de fazer menos gastos supérfluos, de perder menos tempo frente ao televisor para entregá-lo a alguém que necessita nossa assistência, etc.
Por isso o jejum tem que ser unido a caridade, ao gesto caridoso, que é também uma ação preferencial da Quaresma, segundo a tradição cristã. Se jejuarmos só para sofrer ou demonstrar que somos fortes, estaríamos desvirtuando sua verdadeira finalidade.
Pe. Luca