


Entendendo as festas litúrgicas
Domingo de Ramos na paixão do Senhor - Ano A
(16 de Março de 2008)
A Liturgia da Palavra deste Domingo de Ramos na Paixão do Senhor A, é toda referente a Cristo triunfante ao encontro da morte com a liberdade de Filho.
As duas primeiras Leituras são comuns para os três Ciclos A, B e C.
A Liturgia deste domingo, portanto, reveste-se de dois aspectos, aparentemente contraditórios.
Fala-nos de triunfo e de glória para, logo a seguir nos apresentar a leitura da Paixão, que neste ano é segundo S. Mateus.
Apresenta-nos, portanto, a figura de Jesus no seu aspecto de Rei messiânico e ao mesmo tempo de «Servo do Senhor».
A entrada triunfal conduz à Paixão, mas a Paixão só é plenamente compreendida por aquele que reconhece o carácter messiânico de Jesus Cristo.
A morte é apenas um aspecto do Mistério total da Páscoa.
Jesus caminha para a morte, voluntariamente, numa liberdade total, em amorosa entrega pelos homens.
Ao aceitar o entusiasmo da multidão, que bem depressa se mostrará desiludida com o Messianismo de Jesus, o Senhor quer mostrar a liberdade perfeita com que o «Servo Sofredor» vai realizar a Sua missão redentora.
A 1ª Leitura, do Livro do profeta Isaías apresenta-nos o «Servo de Deus» que se oferece como vítima pelos homens seus irmãos.
- Apresentei as costas àqueles que me batiam e as faces aos que me arrancavam a barba, e não furtei o rosto aos insultos e aos escarros.(1ª Leitura).
Entregando-Se confiadamente à Vontade do Pai, seguro de que Ele O assistirá, não hesita em cumprir a Sua missão, que O levará à morte.
Na Sua humilhação, Deus far-Lhe-á conhecer a exaltação ainda que se possa sentir, por momentos, abandonado pelo Pai, como proclama o Salmo Responsorial :
- Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonastes ?
Na 2ª Leitura, S. Paulo diz aos Filipenses, e hoje também a todos os homens, que Jesus se fez um de nós, sujeitando-se às contingências da natureza humana, em obediência ao Pai, para nos poder salvar.
- Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até a morte, e morte de cruz.(2ª Leitura).
No aniquilamento da morte começa, porém, a Sua elevação à glória.
A narração da Paixão é segundo S. Mateus.
S. Mateus dirige-se não a descrentes em busca da Fé, como S. Marcos, mas a cristãos de origem judaica, perfeitos conhecedores do Antigo Testamento.
Por isso, lembrando os salmos e os profetas, o Evangelista mostra como a Paixão de Jesus é a realização de tudo quanto, na longa preparação da vinda do Messias, fora anunciado.
Mas a Paixão marca também o fim da Antiga Aliança.
Ao antigo povo eleito, obstinado em não reconhecer a divindade de Jesus, sucede-se o Novo Povo de Deus.
Despojando-se de tudo o que lhe pertence por conquista ou pelo trabalho, o homem reconhece que tudo pertence a Deus e lho restitui em agradecimento.
E quando uma parte do que foi sacrificado é comida pelos ofertantes, então estabelece-se uma comunhão simbólica entre Deus e os comensais, uma participação da mesma vida.
Na Bíblia, as tradições sacerdotais dão-nos a conhecer uma legislação complexa, que poderia facilmente assumir um valor autónomo e, portanto, formalista, esquecendo o significado da acção cultural em relação à salvação integral do homem.
Os profetas lembram frequentemente que Deus só aceita as ofertas e os sacrifícios se forem acompanhados de uma atitude interior de humildade, de uma oferta espiritual de si mesmo, de reconhecimento da própria e radical pobreza e da necessidade de uma libertação que nós sozinhos não poderemos obter, mas podemos invocar e esperar de Deus.
A pobreza é, pois, o sacrifício espiritual, isto é, a realidade profunda de toda a oferta e imolação de animais e de coisas em honra de Deus.
Esta é a atitude dos pobres de Javé, e especialmente do Servo de Javé; este, tanto no sentido individual como no corporativo.
Enviado para salvar o seu povo (a humanidade), é obrigado a suportar perseguições e ultrages; aceita-os, entretanto, com paciência e mansidão, sabendo que Deus o salvará.
Cumpre a sua missão oferecendo-se a si mesmo como vítima inocente, para expiar os pecados do povo.
Pela sua obediência e pelo seu amor, Deus o exaltará e glorificará; e, com os irmãos salvos, ele louvará o Senhor num sacrifício (banquete) de acção de graças aberto a todos.
Graças ao sacrifício de Jesus, todos os homens podem agora aproximar-se de Deus e penetrar no plano da História da Salvação.
Diz-nos o Catecismo da Igreja Católica :
559. Como vai Jerusalém acolher o seu Messias ? Embora tenha sempre evitado as tentativas populares de O fazerem Rei, Jesus escolheu o momento e preparou os pormenores da sua entrada messiânica na cidade de «David, seu pai»(Lc.1,32). E é aclamado como filho de David e como aquele que traz a salvação(»Hosanna» quer dizer «então salva», «dá salvação»). Ora, o «rei da glória»(Sl.23,7-10) entra na «sua cidade», «montado num jumento»(Za.9,9). Não conquista a filha de Sião, figura da Igreja, nem pela astúcia nem pela violência, mas pela humildade que dá testemunho da verdade. Por isso é que os súbditos do seu reino, naquele dia, são as crianças e os «pobres de Deus», que O aclamam, tal como os anjos O tinham anunciado aos pastores. A aclamação deles : «Bendito o que vem em nome do Senhor» (Sl.117,26), é retomada pela Igreja no «Sanctus» da Liturgia Eucarística, a abrir o Memorial da Páscoa do Senhor.
560. A entrada de Jesus em Jerusalém manifesta a vinda do reino que o rei Messias vai realizar pela Páscoa da sua Morte e da sua Ressurreição. É pela sua celebração, no domingo de Ramos, que a Liturgia da Igreja começa a Semana Santa.
Hosana ao Filho de David.. Bendito o que vem e nome do Senhor...
