Reflexoes e Pensamentos
Um cacho de uva
"O caminho para sermos felizes é
esquecermos de nós."
Frei Patrício Sciadini, ocd.
Não sei onde eu li esta história que me tocou profundamente, por isso decidi contá-la aos meus quatro leitores.
Conta a história que um dia se apresentou a um convento de carmelitas descalços um pobre com um grande cacho de uvas.
Chamou o irmão porteiro e disse para ele: frei, eu vim hoje trazer para o senhor este belo cacho de uva, é o primeiro que eu colhi na minha parreira, como sinal de gratidão por um favor que o senhor me fez anos atrás, quando a minha esposa estava doente e o senhor me deu um dinheiro para comprar remédios sem me fazer muitas perguntas.
O frei ficou feliz, gostava muito de uvas; imediatamente pensou em comer a uva, mas lhe surgiu dentro da consciência uma dúvida.
Não fica bem eu comer a uva, devo dá-la ao superior; afinal ele sabe melhor o que fazer com ela, e ele também gosta de uva, para mim me avika ajudar bastante para superar as minhas dificuldades na oração. Todo sacrifício é como força nova que a gente recebe.
E assim fez. Entregou o cacho de uva ao superior que agradeceu. O superior, diante de um cacho tão bonito não teve muita dúvida; a coisa melhor era chupar aqueles grãos de uva ricos de suco.
Mas se lembrou do irmão doente na enfermeira que ficava o dia todo quase sozinho, chegou e pensou que seria um belo ato de desprendimento dar o cacho de uva ao irmão doente para que ele pudesse saborear das delícias das frutas. E assim fez. O irmão enfermo agradeceu o superior por esta festa de delicadeza.
E quando estava para começar a comer a sua uva recordou-se de tantos benefícios que ele sempre recebia do irmão cozinheiro, afinal o cozinheiro tinha tanta delicadeza com ele...todos os dias lhe preparava a comida que mais gostava, quem sabe se seria um belo gesto de agradecimento oferecer para o irmão cozinheiro o cacho de uva.
Levantou-se lentamente e com a ajuda da bengala foi se arrastando até a cozinha e, com um belo sorriso, entregou o cacho de uva ao irmão que não parava de agradecer. O irmão cozinheiro nunca sentiu uma alegria tão profunda em ver-se lembrado.
Afinal, ser amados e amar é o que mais gera felicidade dentro de nós. Estava para começar a comer o seu cacho de uva quando lhe veio na mente uma idéia que achou do Espírito Santo.
Afinal, por que não dar este cacho de uva ao irmão porteiro que estava sempre na portaria, recebia tudo mas quase não experimentava nada porque era sempre chamado até quando estava no refeitório para atender os outros e assim fez.
Pegou o cacho de uvas e o levou numa bandeja para o irmão porteiro e, com um belo sorriso, lhe entrou o presente que tinha recebido.
O que esta história quer dizer para nós? Este cacho de uvas que pela gratuidade e pelo amor, depois de tanto caminho, tinha voltado de onde tinha saído? Há numa prece eucarística uma frase que sempre me toca profundamente: ó Pai, te devolvemos o que recebemos de te
... Nós recebemos Jesus como dom do amor infinito de Deus e na Eucaristia não fazemos outra coisa senão re-oferecer ao Senhor o mesmo dom que é Jesus.
Vivemos num mundo em que o egoísmo e os interesses pessoais nos impedem de sermos generosos; somos convidados a pensar em nós mesmos e quase esquecemos as necessidades dos outros.
O caminho para sermos felizes é esquecermos de nós; somente desta maneira temos a certeza que o Senhor cuidará de nós com todo carinho e amor.
O caminho da infelicidade é fechar-se em si mesmo não vendo outra coisa a não ser a si mesmo e se preocupando só consigo.
Ninguém ama tanto a si mesmo como o egoísta que ama-se numa forma louca e não sabe ver que o verdadeiro caminho da felicidade é deixar atrás de si todos os seus interesses e pensar nos outros.
O cacho de uvas, que é vida, deve passar de mão em mão até voltar para nós para que, alimentando-nos da mesma vida, possamos também alimentar os outros com a vida plena.
Jesus, vida plena, veio para dar-nos a vida em abundância e para sempre. Ninguém pode ser feliz sozinho; a felicidade é a comunhão de dons, de riquezas que recebemos e repartimos em cada momento. Nestes últimos tempos sinto em mim uma necessidade cada vez maior de dar tudo para todos.
Não devemos nos preocupar com o que os outros podem dizer, o que importa é olhar dentro de nós e deixar que a Água viva que temos recebido, que é Cristo, possa jorrar e matar a sede de todos os que tiverem sede e fome de justiça.
Neste Natal que o Menino Jesus, o verdadeiro cacho de uva que recebemos
como sinal de amor e de dom do Pai, possamos passá-lo de mão em
mão até que volte para nós, assim não seremos felizes
sozinhos.