Autor: D. EstevĂŁo Bittencourt
0 sofrimento humano, especialmente o das crianças e o das pessoas inocentes, Ă© motivo de perplexidade, mesmo para quem tem fĂ©. Deus parece indiferente ao que afeta o ser humano em suas mais Ăntimas aspiraçÔes. - No artigo que se segue, o problema Ă© exposto muito vivamente mediante testemunhos de pessoas desesperadas. Seguir-se-ĂĄ a elucidação da problemĂĄtica: 1) no plano natural mesmo, o sofrimento Ă© inerente Ă dignidade humana e vem a ser escola que engrandece; 2) no plano da fĂ©, o silĂȘncio de Deus Ă© rompido pelo Verbo que se fez carne e assumiu tudo o que Ă© humano - inclusive a dor mais extrema e a morte - nĂŁo a fim de suprimir as desgraças, mas com o objetivo de imprimir novo sentido Ă dor humana, fazendo-a penhor de vida plena e transfigurada. Em Jesus Deus Pai falou e fala aos homens. Os Santos sĂŁo o eco prolongado dessa voz.
0 sofrimento Ă© geralmente um mistĂ©rio, pois contraria Ă s mais Ăntimas aspiraçÔes do ser humano. Principalmente o sofrimento infligido cruelmente a seres inocentes, como sĂŁo as crianças e os justos perseguidos, suscita interrogaçÔes: onde fica Deus nesse contexto? Por que se cala, parecendo ignorar a dor dos seus fiĂ©is? - Nas pĂĄginas subseqĂŒentes, a problemĂĄtica serĂĄ abordada em duas etapas: 1) exposição do questionamento; 2) a solução a) filosĂłfica ou racional e b) a solução da fĂ©.
1. A problemĂĄtica
SĂŁo numerosos os testemunhos de autores que exprimem a angĂșstia do ser humano perante o sofrimento, angĂșstia agravada pelo silĂȘncio de Deus. - Eis alguns depoimentos dos mais significativos:
1.1. 0 ateĂsmo
a) Em 1936 Albert Camus, escritor francĂȘs ateu, encontrava-se em viagem por uma das estradas da AlgĂ©ria, em companhia de um amigo, quando se depararam com horrĂvel cena: um menino muçulmano, atingido violentamente por um ĂŽnibus, jazia sobre o asfalto, sem dar sinal de vida. Voltando-se para o amigo e apontando para o cĂ©u, murmurou Camus: "Como vĂȘs, Ele se cala!". Tais palavras acusavam o Senhor Deus por nĂŁo intervir no caso, como se tal desgraça nĂŁo lhe interessasse. A conclusĂŁo de tal observação repetiria uma pergunta freqĂŒente: como dizer que Deus Ă© bom, se Ele se mantĂ©m impassĂvel diante da dor, principalmente diante da dor de um inocente?
b) No seu romance La Peste, o mesmo Camus descreve uma cena em que o Pe. Paneloux diz ao Dr. Rieux que o sofrimento é sinal do amor de Deus, que de tal maneira quer salvar o homem. Responde Rieux: "Não, padre. Tenho outro conceito de amor. Eu me recusarei até a morte a amar essa criação, na qual crianças são torturadas" (La Peste, Paris 1974, p. 238).
c) Em 1947 um jovem autor alemĂŁo, W. Borchert, escreveu um drama intitulado "Fora, diante da porta", em que imagina um diĂĄlogo entre o ex-combatente Berkmann e Deus:
Mas dize-me: quando é que és bom, ó bom Deus?
Foste bom quando permitiste fosse vĂtima da explosĂŁo de uma bomba meu filho, que mal completara um ano, o meu filhinho? EntĂŁo foste bom quando deixaste que o matassem?...
NĂŁo, Ă© verdade, Tu apenas o permitiste. Mas nĂŁo ouviste quando ele gritava e quando explodiam as bombas? EntĂŁo onde estavas, Ăł bom Deus, quando as bombas explodiam? Ou foste bom quando caĂram mortos onze homens da minha patrulha? Onze homens ao menos, bom Deus. Ă certo que os onze homens clamaram forte na solidĂŁo do bosque, mas nĂŁo estavas lĂĄ; realmente nĂŁo estavas lĂĄ, bom Deus. Foste bom em Stalingrado, bom Deus, foste bom lĂĄ; como? Sim? Mas entĂŁo quando Ă© que foste bom, Deus, quando? Quando alguma vez te ocupaste conosco, Ăł Deus?'
(transcrito do artigo de L. Pozzoli "La perdita del Padre nella letteratura dei 900" em "Rivista del Clero Italiano" 80, 1999, no 4, p. 279).
1.2. No povo de Israel
JĂĄ no Antigo Testamento o salmista confessava sua angĂșstia pelo silĂȘncio de Deus:
"Senhor, por que ficas tĂŁo longe e te escondes no tempo da angĂșstia? A soberba do Ămpio persegue o infeliz. Fiquem presos nas tramas que urdiram! 0 Ămpio se gloria da prĂłpria ambição; o avarento que bendiz, despreza o Senhor. 0 Ămpio Ă© soberbo, jamais investiga: 'Deus nĂŁo existe!'Ă© tudo o que pensa" (SI 10, 22-25).
0 Holocausto (Shoah) abalou profundamente a consciĂȘncia judia pela tragĂ©dia verificada nos campos de concentração de Auschwitz, Dachau, Treblinka... Os judeus formularam perguntas angustiadas: "Onde estava Deus em Auschwitz?", "Como pĂŽde permitir que o seu povo fosse exterminado, sem que Ele mesmo interviesse?", "Por que Deus ficou em silĂȘncio enquanto tantas crianças judias eram torturadas e mortas de maneiras tĂŁo cruĂ©is?''
A estas perguntas alguns judeus tentaram responder apresentando um "novo conceito de,Deus apĂłs Auschwitz". Assim Hans Jonas, numa conferĂȘncia na Universidade de TĂŒbingen (Alemanha) em 1984, afirmou que Deus quis, enquanto durar a histĂłria dos homens, "despojar-se do poder de envolver-se no curso fĂsico das coisas deste mundo" (H. Jonas, "Le concept de Meu aprĂšs Auschwitz. Une voix juive" Paris, PayotRivages, 1994, pp. 34s). 0 mesmo autor continua: "Em Auschwitz Deus ficou mudo. NĂŁo interveio, nĂŁo porque nĂŁo o quisesse, mas porque nĂŁo estava em condiçÔes de intervir. Outorgando ao homem a liberdade, Deus renunciou Ă sua onipotĂȘncia" (p. 34). Reconhecendo a autonomia do homem, Deus se terĂĄ retirado do mundo e da histĂłria da humanidade, renunciando Ă sua onipotĂȘncia.
Outros pensadores judeus foram mais adiante. Em 1944 J. Katzeneison escreveu: "Ă bom que Deus nĂŁo exista, mesmo que seja incĂŽmodo sermos privados de Deus". R. L. Rubinstein perguntou: "Como podem os judeus crer num Deus todo-poderoso e benĂ©volo depois de Auschwitz?". Para E. Wiesel, "Deus foi infiel Ă s suas promessas; por isto Ă© impossĂvel continuar a crer; mas tambĂ©m Ă© impossĂvel nĂŁo mais crer" (cf. M. Giuliani, Auschwitz nei pensiero ebraico. Brescia, Morcelliana 1998).
1.3. Entre os cristĂŁos
TambĂ©m os cristĂŁos sentem angustiados a aparente ausĂȘncia de Deus. AtĂ© mesmo os mais unidos aos valores espirituais ou os mais enriquecidos com graças especiais experimentaram (e experimentam) o sofrimento por causa do silĂȘncio de Deus.
SĂŁo JoĂŁo da Cruz chama essas fases de aridez "noites do espĂrito"; nestas nĂŁo somente Deus parece ausente, mas a alma justa tem a impressĂŁo de estar rejeitada por Deus e condenada Ă perdição definitiva. A histĂłria da espiritualidade cristĂŁ estĂĄ cheia de casos de Santos e Santas que passam pela noite do espĂrito com duração de anos.
A autobiografia de Santa Teresa de Lisieux refere longos perĂodos de desolação espiritual da jovem carmelita: um muro parecia separĂĄ-la do cĂ©u, quase sempre fechado, enquanto era assaltada por dĂșvidas de fĂ© e tentaçÔes de desespero. Tal estado de desolação acompanhou Teresa atĂ© o fim da vida, quando finalmente Deus se fez "sentir" e ela pĂŽde respirar na alegria e na paz, murmurando: "Mon Dieu, je vous aime". Na manhĂŁ do dia em que morreu, disse a Santa: "Passo por uma pura agonia, sem qualquer cons ' olação... NĂŁo; nunca teria acreditado que fossepossĂvel sofrer tanto".
Estes depoimentos bastam para ilustrar o problema: Ă© difĂcil compreender que Deus nĂŁo intervenha em tantos casos para livrar suas criaturas das mĂŁos de assassinos e malfeitores ou para salvar inocentes que sofrem cruelmente. Teriam razĂŁo os ateus ao afirmar que tal ordem de coisas Ă© incompatĂvel com a existĂȘncia de um Deus que seja bom e, ao mesmo tempo, todo-poderoso?
Tais perguntas sugerem reflexĂŁo.
2. Ponderando serenamente...
NĂŁo hĂĄ dĂșvida, a realidade do sofrimento humano Ă©, por vezes, obscura, de modo que nĂŁo se pode elucidar cada caso de dor. Como quer que seja, a razĂŁo e a fĂ© convergem entre si para dissipar a idĂ©ia de que o sofrimento Ă© incompatĂvel com a existĂȘncia de Deus bom e todo-poderoso. Ă o que passamos a demonstrar.
2.1. Fala a razĂŁo:
A razĂŁo aponta dois aspectos positivos e valiosos do sofrimento:
a) Sintoma de perfeição ontológica
Verifica-se que o sofrimento estå ligado à perfeição dos seres. Com efeito; subamos a escala dos seres:
- o mineral nĂŁo sofre. Pode ser talhado e martelado sem que sinta dor. Ă totalmente insensĂvel;
- o vegetal, quando agredido, reage. A planta da qual se corta um ramo, tende a se restaurar; por conseguinte, no plano em que começa a vida, começa a réplica àquilo que pretende destruir o ser;
- o animal irracional (cĂŁo, gato ... ) sofre, gemendo, chorando, urlando... Goza de vida sensitiva; por isto sente a dor;
- o ser humano, que vive no plano intelectivo, sofre mais ainda.
NĂŁo somente sente dor fĂsica ou moral, mas tambĂ©m reflete sobre a sua dor - o que o faz sofrer duplamente. E - note-se bem - quanto mais alguĂ©m Ă© nobre e digno, tanto mais sofre; assim quem muito ama, muito sofre. SĂł nĂŁo sofre quem Ă© alienado ou doente mental ou... tarado e desnaturado... A razĂŁo desse sofrimento estĂĄ em que a pessoa percebe a diferença existente entre o ideal (o que deveria ser) e a realidade; essa diferença suscita dor em quem tem sensibilidade para os verdadeiros valores.
Donde se vĂȘ que o sofrimento nĂŁo somente nĂŁo Ă© incompatĂvel com a auto-realização de alguĂ©m, mas chega a estar indissoluvelmente associado Ă nobreza do ser humano. Ă sintoma de grandeza moral (desde que vivenciado sem masoquismo nem sadismo).
b) Escola de aperfeiçoamento espiritual
A experiĂȘncia ensina que o sofrimento contribui, muitas vezes (verdade Ă© que nem sempre), para o engrandecimento de quem sofre. Quebra o egoĂsmo ou o egocentrismo e torna a pessoa mais compreensiva, mais aberta para o prĂłximo e o mundo. Purifica o olhar da mente, permitindo escalonar melhor os valores e ajudando a desmascarar mais precisamente as bolhas de sabĂŁo, coloridas por fora, mas vazias por dentro. 0 sofrimento desfaz ilusĂ”es e leva o ser humano a procurar em plano superior a resposta cabal para seus anseios naturais. Isto Ă© tĂŁo verĂdico que jĂĄ os filĂłsofos gregos antes de Cristo faziam o trocadilho: pĂĄthos mĂĄthos (sofrimento Ă© educação). 0 autor da epĂstola aos Hebreus chega a dizer que Jesus, como homem, aprendeu mediante o que sofreu: Ă©mathen aph'hon Ă©pathen (Hb 5, 8).
A Escritura pÔe em relevo o valor pedagógico do sofrimento. Assim diz o Senhor a Israel:
"Reconhece no teu coração que o Senhor teu Deus te educava, como um homem educa seu filho" (Dt 8, 5). A carta aos Hebreus retoma a temåtica:
"à para a vossa educação que sofreis. Deus vos trata como filhos. Qual é, com efeito, o filho cujo pai não o educa? Se estais privados da educação, da qual todos participam, então sois bastardos e não filhos" (Hb 12, 7s).
"Deus nos educa para o aproveitamento, a fim de nos comunicar a sua santidade" (Hb 12, 10).
Assim como a energia do ĂĄtomo sĂł se desprende quanto o ĂĄtomo Ă© bombardeado, assim tambĂ©m a energia do herĂłi ou da heroĂna sĂł se atualiza e mobiliza quando martelada pela dor..
Passemos agora à instùncia da fé.
2.2. Fala a fé
0 que vai dito a seguir, sĂł pode ser plenamente entendido por quem tenha fĂ©. Todavia Ă© de notar que a noção de um Deus omisso, negligente ou malvado Ă© inconcebĂvel: ou Deus Ă© a suma perfeição, infalĂvel em tudo, ou nĂŁo Ă©, nĂŁo existe. Um Deus que o homem possa criticar por ser Ele imperfeito (menos justo ou santo do que o homem) nĂŁo pode existir, pois tal conceito seria contraditĂłrio. Quando o homem nĂŁo entende o comportamento de Deus, nĂŁo diga que Ele estĂĄ sendo falho (tal hipĂłtese Ă© inconsistente), mas reconheça que a sabedoria de Deus Ă© mais ampla do que a da criatura; por isto Ă© por vezes misteriosa, ... misteriosa, porĂ©m, porque mais profunda do que a do homem. NĂŁo Ă© lĂcito configurar Deus Ă semelhança de um Grande Homem ou Grande Banqueiro.
Dito isto, passemos a uma reflexĂŁo teolĂłgica mais profunda.
Ensina a Escritura que Deus criou o homem num estado de bonança, em que estaria isento de sofrimento e morte; cf. Gn 2, 17; 3, 16-19; Sb 1, 13s; 2, 23s. Todavia o homem perdeu a graça original pelo pecado que cometeu. Em conseqĂŒĂȘncia estĂĄ sujeito Ă dor e Ă morte. Tal Ă© a explicação que a fĂ© apresenta para o fenĂŽmeno. - Deus, porĂ©m, nĂŁo Ă© indiferente a tal estado de coisas: o prĂłprio Deus assumiu a natureza humana com todas as conseqĂŒĂȘncias do pecado; provou a dor e a morte, transfigurando-as ou tornando-as canais para a posse da plena vida. Depois que Jesus morreu na cruz, o sofrimento nĂŁo desapareceu da face da terra, mas adquiriu sentido novo ou, melhor, mudou de sinal: deixou de ser mero sĂmbolo de perdição para tornar-se sinal de redenção e salvação.
Assim pode-se dizer que Deus nĂŁo se calou nem se cala diante do sofrimento humano. Este assume, por vezes, proporçÔes gigantescas devidas Ă perversidade humana, mas Ă© acompanhado pela ProvidĂȘncia Divina. AliĂĄs, diz S. Agostinho que Deus nunca permitiria os males (cometidos pelo homem ou pelas criaturas em geral) se nĂŁo tivesse, em sua sabedoria, recursos para tirar dos males bens ainda maiores; nem sempre nos Ă© dado contemplar os frutos positivos do sofrimento, mas Ă© de crer que a sabedoria divina nĂŁo se engana e revelarĂĄ aos homens, no fim da histĂłria, o feliz desfecho de muitas misteriosas tragĂ©dias.
Diz Pascal (t 1662) que Cristo estarĂĄ em agonia atĂ© o fim dos tempos. Sim; em cada justo Ă© Cristo quem prolonga a sua PaixĂŁo redentora (cf. CI 1, 24). Assim os Santos sĂŁo, ao longo da histĂłria da humanidade, os sinais de Deus; padecendo com Cristo, indicam aos seus irmĂŁos o significado de vitĂłria que o sofrimento assume quando unido ao de Cristo. Pelos Santos, que nunca faltarĂŁo no decorrer dos tempos, Deus rompe o trĂĄgico silĂȘncio e fala aos homens. [D. EstevĂŁo Bettencourt - P & R – outubro de 1999]

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