Israelense confirma data bíblica de túnel

 


ARQUEOLOGIA


Equipe verifica com teste de carbono-14 em argamassa que duto de Siloé foi construído por volta de 700 a.C.


Israelense confirma data bíblica de túnel

Divulgação/Israel Nature and Parks Authority




Piscina de Siloé marca a abertura do túnel de mesmo nome



REINALDO JOSÉ LOPES

FREE-LANCE PARA A FOLHA


Pesquisadores israelenses conseguiram datar a construção de um misterioso túnel que conduz água até Jerusalém e concluíram que, pelo menos nesse caso, as informações disponíveis na Bíblia são acuradas: a obra foi mesmo feita por volta do ano 700 a.C. para enfrentar a invasão assíria, como diz o livro sagrado.


O túnel de Siloé, que tem cerca de meio quilômetro de extensão, foi construído para canalizar a água da torrente do Gion, a única fonte perene de água nos arredores de Jerusalém.


Ele tem uma história repleta de associações religiosas, como quase tudo na capital israelense. Sua água desemboca num tanque ou piscina com o mesmo nome, no qual, segundo o Evangelho de João, Jesus teria curado um cego de nascença.


Por séculos, a existência do canal foi atribuída ao rei Ezequias de Judá (que reinou de 727 a.C. a 698 a.C.), considerado ancestral do próprio Jesus. Tanto o 2º Livro dos Reis quanto o 2º Livro das Crônicas, na Bíblia, dizem que o soberano canalizou água para a cidade. O motivo era estratégico: Ezequias rompera a vassalagem que ligava o reino de Judá aos assírios, então o povo mais poderoso do Oriente Médio, e temia um cerco iminente a Jerusalém.


A previsão não demorou a se confirmar. Por isso, diz o 2º Livro das Crônicas, quando o rei assírio Senaqueribe se aproximou de Judá, disposto a sitiar a cidade, Ezequias bloqueou todas as fontes de água da região para que o inimigo não tivesse o que beber, reservando o Gion para si: "Ele fez as águas correrem por baixo para o ocidente da Cidade de Davi [a região fortificada que era o núcleo da antiga Jerusalém]".


Tecnologia revolucionária


A história parece bem contada, mas uma inscrição, que foi encontrada no túnel no final do século 19 e descreve sua construção, não menciona o nome de Ezequias. Além disso, a construção usa uma técnica inovadora para a idade que se atribui a ela.


"Por milhares de anos, esses túneis foram feitos com a ajuda de alçapões intermediários, que eram escavados separadamente a partir da superfície e depois unidos", conta o geólogo Amos Frumkin, 50, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Ele é o coordenador do estudo que sai hoje na revista científica "Nature" (www.nature.com).


"O túnel de Siloé foi feito sem a ajuda desses alçapões, uma inovação de engenharia para a época." Por isso, havia quem achasse que o sistema subterrâneo tivesse sido aberto muito depois, por volta de 200 a.C., quando o reino de Judá e a dinastia de Ezequias (a dos descendentes de Davi) já haviam sumido do mapa.


Frumkin e seus colegas Aryeh Shimron e Jeff Rosenbaum, dispostos a pôr fim à controvérsia, passaram a vasculhar o túnel em busca de restos orgânicos ou minerais que pudessem ser datados de forma precisa. Por sorte, a equipe descobriu que não havia deposição de sedimentos entre a rocha calcária que forma as paredes do túnel e a argamassa usada para vedar fissuras nas paredes e no chão do túnel. Isso sugere que esse material foi colocado ali logo depois que as passagens foram abertas na pedra.


Retirando amostras dessa "argamassa antiga", como eles a chamaram, os cientistas verificaram que o método para fabricá-la juntava num verdadeiro amálgama cal, barro, cinzas e materiais orgânicos, inclusive fragmentos de plantas bem preservados.


Era disso que eles precisavam: com esses restos, foi possível usar a técnica do carbono-14, na qual uma versão radioativa desse elemento desaparece a uma taxa conhecida da matéria orgânica morta, permitindo estimar quando ela esteve viva pela última vez.


A idade obtida, algo em torno de 730 a.C., com quatro ou cinco décadas de incerteza para mais ou para menos, casa bastante bem com a idade tradicionalmente atribuída ao túnel (701 a.C.) e com o reinado de seu construtor, diz Frumkin. Testes em estalactites no teto, que só apareceram depois da abertura do túnel, deram resultados parecidos. Para Frumkin, está clara a relação entre o antigo túnel e a ameaça assíria: "Vemos isso na própria construção e na Bíblia", avalia o geólogo.

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