Maria durante a vida publica de Jesus

 


Fonte: Maria, Um espelho para a Igreja

Autor: Raniero Cantalamessa


Há nos Evangelhos, referências a Nossa Senhora que no passado, no clima dominado pela idéia de privilégio, criavam certos embaraços entre os crentes e que agora pelo contrário, aparecem-nos como marcos nesses caminhos de fé de Maria. Passagens que , por isso mesmo não precisamos por de lado apressadamente, ou suavizar com explicaçoes convenientes. Vamos considerar brevemente esses textos.


Comecemos com o episódio da perda de Jesus no templo (cf. Lc 2,41 ss). Lucas realçando que Jesus foi encontrado novamente "depois de três dias", talvez já faça referencia ao Mistério Pascal da morte e ressurreição de Cristo. De qualquer maneira, com toda a certeza este foi o início do misterio pascal de despojamento para a Mãe. De fato, que precisou ela ouvir depois de tê-lo encontrado novamente? Porque me Procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai? Uma mãe em condições de entender o que o coração de Maria experimentou ouvindo essas palavras colocavam entre ela e Jesus uma outra vontade, infinitamente mais importante, que punha em segundo lugar qualquer outro relacionamento, também o relacionamento filial com ela.


Continuemos, porém. Encontramos uma menção de Maria em Caná na Galiléia, exatamente no momento em que Jesus está começando seu ministério público. Conhecemos os fatos. Qual a resposta que Maria ouviu de Jesus ao seu discreto pedido de intervenção? Que temos nos com isso mulher? (Jo 2,4). De qualquer maneira que se expliquem essas palavras elas soam duras, mortificantes, parcem novamente colocar uma distancia entre Jesus e sua Mãe.


Todos os três Sinóticos referem-nos este outro episódio acontecido durante a vida pública de Jesus. Um dia enquanto Jesus estava pregando, chegaram sua Mãe e alguns parentes para falar-lhe. Talvez a Mãe estivesse preocupada com a saúde dele, o que é muito natural para uma mãe, pois que logo antes está escrito que Jesus, por causa da multidão, não podia nem comer (cf. Mc 3,20). Percebemos um detalhe. Maria, a Mãe, precisa até mendigar o direito de ver o Filho e de falar-lhe. Ela não abre caminho no meio da multidão, aproveitando o fato de ser mãe.Pelo contrário, ficou esperando fora enquanto os outros foram até Jesus para informá-lo: "Lá fora está tua mãe que te quer falar". Mas, aqui também, o mais importante é a palavra de Jesus que contiua sempre na mesma linha : "Quem sao minha mãe e irmãos?" (Mc 3,33). Já conhecemos a resposta. Procuremos colocar-nos - tente, por exemplo, a mãe de um sacerdote colocar-se - no lugar de Maria e entenderemos a humilhação e o sofrimento que aquelas palavras lhe causaram. Sabemos hoje que naquelas palavras está mais um elogio do que uma repreensão para a mãe; mas ela não sabia , pelo menos naquele momento. Naquele momento havia só a amargura de uma recusa. O Evangelho nao diz se depois Jesus saiu para falar-lhe; provavelmente Maria teve de ir embora, sem ter visto o filho e sem ter falado com ele.


Um outro dia - narra São Lucas - uma mulher no meio da multidão teve numa exclamação de entusiasmo para com Jesus : Felizes - ela disse - as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!Eram um desses cumprimentos que, por si sós, bastam para fazer a felicidade de uma mãe. Maria porém, se estava presente ou se foi informada, não pode saborear tranquilamente estas palavras, porque Jesus logo se apressou a corrigir : Dize antes : Felizes os que escutam a palavra de Deus e a põe em prática (Lc 11,27-28).


Ainda um ultimo detalhe nesta linha. São Lucas num determinado onto de seu Evangelho, fala de um grupo de piedosas mulheres - cujo nome tambem se refere - que tinham sido beneficiadas por ele e que o "serviam com os seus bens" (cf. Lc 8,2-3), isto é, cuidavam das necessidades materiais deles e dos apóstolos, preparando uma refeição, lavando ou consertando uma roupa, etc. Que isso tem a ver com Maria? É que entre essas mulheres não aparece a mãe, e todos sabem quanto uma mão gostaria de prestar estes pequenos serviços ao filho, especialmente se consagrado ao Senhor. Aí temos um sacrifício total do coração.


Que significa tudo isso? Uma série de fatos e de palavras tão detalhados e coerentemente não pode ser um acaso. Também Maria teve de experimentar sua Kénose. A Kénose de Jesus consistiu no despojar-se de seus legítimos direitos e de suas prerrogativas divinas, assumindo a condição de servo e manifestando-se exteriormente como simples homem. A Kénose de Maria consistiu em deixar-se despojar de seus legitimos direitos de Mãe do Messias, parecendo-se diante de todos uma mulher como as outras. A condição de Filho não poupou ao Cristo qualquer humilhação, Jesus dizia que a Palavra é o instrumento com que Deus poda e limpa os ramos : Vós estais limpos, devido a Palavra ... (João 15,3) . E, tais foram as palavras que ele dirigiu a sua Mãe. Por acaso não seria essa Palavra a espada que , conforme Simeão, um dia transpassaria sua alma?


A Maternidade divina de Maria era também antes de tudo, uma maternidade humana ; tinha ums aspecto também "Carnal", no sentido positivo deste termo. Jesus era o seu filho carnal, da mesma maneira que os dois filhos nascidos da mesma mãe são chmado de irmãos carnais. Aquele Filho era o seu filho, era sua única riqueza, o seu único apoio na vida. Mas ela precisou renunciar a tudo o que havia de humanamente exaltante na sua vocação. O Filho mesmo colocou-a numa situação tal que ela não podia aproveitar-se de nenhuma vantagem terrena da sua situação de mãe. Seguia a jesus "como se não fosse" sua mãe. Desde que começou seu ministério e deixou Nazaré, Jesus não teve onde reclinar a cabeça, e Maria não teve onde reclinar seu coração.


À sua pobreza material, já que era muito grande, Maria precisou acrescentar também a pobreza espiritual, no seu grau mais alto. Pobreza de espírito que consiste em deixar-se despojar de todos os privilégios, em não poder apoiar-se em nada, nem do passado e nem do futuro, nem nas revelações e nem nas promessas, como se tudo isso não lhe pertencesse e nunca tivesse acontecido. São João da Cruz chama isso de "noite escura da memória", e falando a respeito lembra explicitamente a Mãe de Deus (São João da Cruz, Subida ao Monte Carmelo III 2,10). Essa "noite da memória" consiste no esquecer-se, ou melhor, na impossibilidade de , mesmo querendo, lembrar-se do passado, lançados unicamente na direção de Deus, vivendo de pura esperança. Essa verdadeira e radical pobreza de espírito que é rica só de Deus e, mesmo isso, só na esperança. É o que Paulo chama de viver "esquecido do passado" (Fl 3,13).


Com sua Mãe, Jesus comportou-se como um diretor espiritual lúcido e exigente que, tendo entrevisto uma alma extraordinária, não a faz perder tempo nem contemporizar com sentimentos e consolações naturais : pelo contrário, se ele mesmo for santo, arrasta-o numa corrida sem tréguas para o despojamento total, para chegar à união com Deus. Ensinou a Maria a renuncia de si mesma. A seus seguidores de todos os séculos, Jesus os dirige mediante o seu Evangelho; sua mãe, porém dirigiu-a de viva voz, pessoalmente. Por uma das mãos Jesu deixava-se conduzir pelo Pai, através do Espírito, para onde o Pai o queria : ao deserto para ser tentado, ao monte para ser desfigurado, ao Getsêmani para suar sangue.... Eu sempre faço -ele dizia- o que é do seu agrado (Jo 8,29). Com a outra mão, Jesus conduz sua mãe na mesma corrida para fazer a vontade do Pai. Por isso, agora que está glorificada no céu perto do Filho, Maria pode estender sua mão materna para nós pequeninos, levando-nos consigo e dizendo com bem mais razão que o Apóstolo : Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo (I Cor 11,1).

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