Autor: Dr. Rafael Vitola Brodbeck
Satanås não é muito criativo. Suas idéias são repetitivas. Heresias novas nada mais são do que restauração de velhos erros. O próprio modernismo, condenado por São Pio X, foi, por este Papa, classificado como um conjunto de todas as antigas heresias com uma nova roupagem.
Nesse sentido, nĂŁo devemos nos espantar de ver na teologia ensinada pela Reforma Protestante um renascimento das idĂ©ias na AntigĂŒidade jĂĄ professadas - e igualmente pela Igreja condenadas.
Buscando um suporte patrĂstico para as absurdas sustentaçÔes protestantes, os reformadores envolveram-se no ambiente histĂłrico de polĂȘmicas passadas. Todavia, essas mesmas polĂȘmicas foram terminadas pela autoridade do Sumo PontĂfice, a qual nĂŁo era aceita pela doutrina protestante. Dessa forma, nĂŁo poderia haver, no seio do protestantismo, uma norma objetiva que impedisse as heresias de se alastrarem entre as vĂĄrias correntes que constituĂam o movimento, no melhor espĂrito do livre-exame de Lutero.
Deslocando a Ă©poca da PatrĂstica para o Renascimento, importaram tambĂ©m os erros contra os quais os Padres da Igreja lutaram. Sem a autoridade romana, tĂŁo cara aos Padres, nĂŁo se viram os reformadores com condiçÔes de separar o joio do trigo, a mentira da verdade, o erro da ortodoxia, ressuscitando velhos credos herĂ©ticos, hĂĄ muito condenados. Nascido uma heresia - negação do primado do Papa, da concepção catĂłlica dos sacramentos, e da Tradição ApostĂłlica -, o protestantismo sĂł veio a contaminar-se mais ainda de outras heresias, essas sim, novos modos de demonstrar ancestrais erros.
A grande heresia contra a qual lutou a Igreja CristĂŁ dos primeiros sĂ©culos foi o arianismo. Pregava Ărio, o principal lĂder dessa seita, que Cristo nĂŁo participava da essĂȘncia divina. O Verbo, para os arianos, nĂŁo era Deus, porĂ©m a mais perfeita criatura. SĂł era Cristo o Filho de Deus na medida em que recebera do Pai uma "adoção" em um dado momento histĂłrico, ou que nascera sendo por Deus criado. Para o arianismo, as naturezas divina e humana eram, entĂŁo, incomunicĂĄveis. Contra os erros de Ărio, foi convocado o ConcĂlio EcumĂȘnico de NicĂ©ia I, que Ă queles condenou.
Gerou o arianismo outras idĂ©ias errĂŽneas. Entre elas o nestorianismo, doutrina professada por um Patriarca da Constantinopla que logo foi deposto de seu alto cargo. NestĂłrio - de onde o nome da heresia - confundia os termos "natureza" e "pessoa". Assim, Ă doutrina comum de que Jesus tinha duas naturezas - o que serĂĄ explicitado mais tarde -, acrescentou o heresiarca o falso entendimento de que em Cristo havia duas pessoas. Os nestorianos professavam que o Verbo de Deus era uma Pessoa Divina, e que se uniu, no seio da SantĂssima Virgem, a uma criatura humana, formando Jesus Cristo. No Salvador, haveria, entĂŁo, uma Pessoa Divina e uma pessoa humana. Restava que divindade e humanidade continuavam separados, eis que a uniĂŁo em Cristo nĂŁo era essencial, substancial. Sem perceber, NestĂłrio, atacou a base do cristianismo, que Ă© a perfeita uniĂŁo entre o homem e Deus - naturezas humana e divina - a na Ășnica Pessoa divina de Jesus Cristo. Pensando assim, nada mais natural do que afirmar que Nossa Senhora era a MĂŁe de Cristo, mas nĂŁo a MĂŁe de Deus, uma vez que, nĂŁo estando unidas as naturezas numa sĂł Pessoa Divina, mas, segundo tal heresia havendo duas pessoas realmente distintas, o fruto gerado no ventre daquela SantĂssima Virgem seria a pessoa humana unida Ă Divina. A doutrina catĂłlica sustentava a uniĂŁo entre as naturezas humana e divina em uma sĂł Pessoa Divina. Assim, sendo Maria a mĂŁe da natureza humana, nĂŁo o sendo da natureza divina, era, ao menos, MĂŁe de Deus pela hipostĂĄtica uniĂŁo entre elas na Ășnica Pessoa, esta sim, Divina. Condenou-se o nestorianismo no ConcĂlio EcumĂȘnico de Ăfeso, que proclamou oficial o tĂtulo mariano de MĂŁe de Deus, TheotĂłkos.
Com premissas diferentes, e para combater as pretensĂ”es de NestĂłrio, surge o monofisismo, equivocada compreensĂŁo das decisĂ”es conciliares de Ăfeso. Se esse sĂnodo defendeu que em Cristo havia uma sĂł Pessoa, a Divina, os monofisistas entenderam essa Ășnica personalidade como apenas uma natureza. Se o nestorianismo enfatizava a separação em Cristo, exagerando de tal modo que separava as pessoas, o monofisismo enfatizava a uniĂŁo, exagerando de maneira a pregar que as naturezas eram uma sĂł. O principal lĂder da seita, Ăutiques, acreditava que a natureza humana tinha sido como que absorvida pela natureza divina. A conseqĂŒĂȘncia filosĂłfica era a mesma do nestorianismo: novamente, por razĂ”es diferentes desta vez, as esferas divina e humana estavam separadas. Se o humano tinha sido absorvido pelo humano em Cristo, a humanidade de Nosso Salvador deixava de existir na prĂĄtica. Isso gerava a conclusĂŁo de que a humanidade continuava fora da esfera divina. Tal heresia foi apreciada negativamente pelo ConcĂlio EcumĂȘnico de CalcedĂŽnia.
Tentando reunir os catĂłlicos ortodoxos com os monofisistas, o imperador patrocinou o ensino do monotelismo. Por essa nova heresia, pretendia-se de que em Jesus Cristo havia de fato uma sĂł Pessoa, e duas naturezas, contrariando o nestorianismo e o monofisismo. Pecava, entretanto, pela errada compreensĂŁo de que, apesar das duas naturezas, havia somente uma vontade. A humana inexistia, permanecendo apenas a divina. Negava-se, assim, por necessĂĄrias conseqĂŒĂȘncias filosĂłficas - nĂŁo dizemos que isso seja o pretendido pela heresia em si -, a liberdade humana. O monotelismo fez nascer um fatalismo que atacava o livre-arbĂtrio. Se em Cristo a vontade humana era uma ilusĂŁo, havendo apenas uma vontade divina, o que se dirĂĄ de nĂłs, pobres criaturas? Pelo monotelismo, sĂł se poderia conceber o homem como ser escravo, sem vontade livre, e necessariamente usado pela vontade divina.
NĂŁo Ă© isso, afinal, o protestantismo? Ao afirmar que, pelo pecado, o homem se separou completamente de Deus, nada mais havendo nele de bom, restaura-se a visĂŁo antropolĂłgica que tanto o nestorianismo quanto o monofisismo, e em parte o prĂłprio arianismo, tinham: a esfera humana estĂĄ completamente fora da esfera divina. Ao negar o livre-arbĂtrio do homem, o protestantismo faz reviver a idĂ©ia monotelita de ausĂȘncia de vontade no ser humano, restando somente a de Deus.
LĂłgico Ă© que o nestorianismo seja a premissa protestante por excelĂȘncia, nessa temĂĄtica da Encarnação. Lembremos a tendĂȘncia atual da maioria dos setores protestantes de negar o tĂtulo de MĂŁe de Deus Ă Virgem Maria... Muitos, ao serem interpelados por apologistas catĂłlicos sobre ser Jesus Deus e homem ao mesmo tempo, e por isso mesmo, sendo Maria mĂŁe de Cristo sĂł pode ser tambĂ©m MĂŁe de Deus, respondem, quase como se fossem o prĂłprio NestĂłrio: - A Virgem Maria Ă© mĂŁe de Cristo enquanto homem, e nĂŁo de Cristo enquanto Deus! Ora, Deus e o homem estĂŁo unidos em Cristo na mesma Pessoa, e Ă© esta Divina. SĂł para o nestorianismo, que confunde os termos, Ă© que nĂŁo. O protestantismo Ă© herdeiro do nestorianismo!
Por outro lado, todas as heresias antigas, principalmente o nestorianismo, o monofisismo e o monotelismo, contribuĂram para o surgimento do iconoclasmo, violento movimento que combatia o culto Ă s imagens. A negação de real ligação entre o mundo humano e o divino excluiu a verdadeira possibilidade de uniĂŁo entre Deus e o mundo material e sensĂvel, e isso refletiu-se radicalmente no nascimento do iconoclasmo, justamente porque este odeia as imagens ao odiar a materialização do espiritual.
NĂŁo sĂŁo os protestantes, outrossim, os maiores inimigos das imagens?
Enfim, a concepção pessimista do homem e do mundo, a redução da Moral a um mero cĂłdigo de posturas - do estilo "isso pode, aquilo nĂŁo pode" -, a impossibilidade de perceber nuances - v.g., de que entre o preto e o branco hĂĄ vĂĄrios tons de cinza -, e a deturpação grosseira do tema da batalha espiritual na qual todos estamos envolvidos, identificam muito o protestantismo com os erros da antiga gnose. Com efeito, elementos gnĂłsticos foram nĂŁo sĂł ressuscitados pela Reforma Protestante - e tornados mais radicais no puritanismo, o qual, por sua vez influenciou certa visĂŁo norte-americana -, como envolviam todo o ambiente cultural da Renascença, o que levou Ă s duas revoluçÔes que lhe foram subseqĂŒentes e ideologicamente herdeiras uma da outra: a Francesa de 1789, e a Russa de 1917, todas as duas, por fim, profundamente influenciadoras da atual cultura gnĂłstica, igualitĂĄria e neopagĂŁ em que vivemos, explicitada, no meio confessadamente cristĂŁo, pela explosĂŁo de movimentos pentecostais de nĂtida caracterĂstica montanista e milenarista - mais duas heresias presentes na "salada" protestante.
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* advogado e pensador catĂłlico

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