Os Tipos de Cristo em GĂȘnesis

 


Autor: AnĂ­sio Renato de Andrade


O QUE É UM TIPO ?


A palavra vem do grego : tipos. Significa molde ou sinal. Aquilo que inspira fé como modelo. Personagem paradigmåtico.


Os tipos de Cristo sĂŁo personagens, animais ou objetos, nesse caso, de GĂȘnesis, que possuĂ­ram caracterĂ­sticas "messiĂąnicas". Eram profecias vivas,ou visĂ­veis, a respeito de Cristo. Estudando a respeito desses personagens, entendemos um pouco mais sobre o carĂĄter de Jesus e do seu ministĂ©rio. Tais pessoas e fatos, abordados na seqĂŒĂȘncia, eram sombras da realidade, que Ă© Cristo.


ADÃO


Este foi o primeiro homem. Talvez nĂŁo o associĂĄssemos Ă  pessoa de Cristo se Paulo nĂŁo o tivesse feito. O apĂłstolo traça tal paralelo em Romanos 5:12-21 e em I CorĂ­ntios 15:21,22,45-49. A semelhança entre Jesus e AdĂŁo estĂĄ no fato de ambos terem sido os primeiros de suas respectivas "espĂ©cies". AdĂŁo foi o primeiro da raça humana. Jesus foi o primogĂȘnito dos filhos de Deus (Rm.8:29). Seus atos foram determinantes na formação da natureza de seus descendentes (Rm.5:19 Is.53:10). Tanto o pecado de AdĂŁo quanto a salvação em Cristo podem ter conseqĂŒĂȘncias eternas, dependendo, para isso, da escolha que se faz pelo lĂ­vre-arbĂ­trio. AlĂ©m desses pontos, a comparação entre os dois Ă© feita com ĂȘnfase no contraste:


O ANIMAL SACRIFICADO PARA VESTIR ADÃO E EVA


O pecado trouxe a consciĂȘncia da nudez e, consequentemente, a vergonha. Eles tomaram a iniciativa de fazer algo que os cobrisse. Usaram folhas de figueira para fazer aventais, ou cintas. Tanto o material era inadequado quanto insuficiente a extensĂŁo da roupa produzida. Deus entĂŁo lhes fez tĂșnicas de peles (Gn.3:21). A pele iria cobri-los convenientemente, alĂ©m de aquecĂȘ-los. Para que Deus utilizasse peles, entendemos que pelo menos um animal deveria ser morto.


A iniciativa humana para cobrir os danos do pecado Ă© totalmente ineficaz. SĂł Deus podia fazĂȘ-lo. Para isso, ele enviou o seu filho, o Cordeiro de Deus, que, tendo sido morto, nos cobre, nos protege e nos torna dignos de chegar Ă  presença de Deus sem constrangimento.


ABEL


Abel foi morto sem que fosse digno de morte. Seu sangue clamava a Deus desde a terra. Jesus também foi morto sem haver cometido nenhum crime e seu sangue fala melhor que o de Abel. Vemos um paralelo simples entre Abel e Jesus, conforme descrito em Hebreus 12:24.


A ARCA DE NOÉ


Quando Deus decidiu destruir os homens perversos e pecadores, ele mandou que NoĂ© construĂ­sse a arca. Este seria o Ășnico meio de salvação. Este Ă© um sĂ­mbolo perfeito para a obra de Cristo. Ele Ă© o Ășnico meio de salvação neste tempo que antecede a destruição final. NoĂ© "pregava a arca" como a Ășltima chance. NĂłs pregamos a Cristo. Evidentemente, sĂł entraria na arca quem cresse na palavra de NoĂ©, na segurança da embarcação e se arrependesse de sua condição de pecado. Entrar na arca era um ato pĂșblico e subentende renĂșncia ao que ficava para trĂĄs. Tudo isso encontra paralelo na conversĂŁo a Cristo. Finalmente, cabe lembrar que a salvação pela arca foi comparada ao batismo pelo apĂłstolo Pedro em sua primeira epĂ­stola (3:20-21).


JOSÉ


JosĂ© foi um dos 12 filhos de JacĂł. Foi invejado pelos irmĂŁos que o venderam por 20 moedas de prata. Jesus foi vendido por 30 moedas. JosĂ© foi tirado da casa de seu pai e foi viver no Egito como servo. Jesus tambĂ©m deixou a casa do Pai celestial e veio ao mundo em forma de servo (Fp.2:7). JosĂ© foi o meio de salvação para o Egito e para sua prĂłpria famĂ­lia no tempo da fome. Da mesma forma, Jesus Ă© o Ășnico meio de salvação para a humanidade. Ele Ă© o pĂŁo para a fome espiritual. Em GĂȘnesis, JosĂ© Ă© o tipo mais evidente de Cristo. O prĂłprio FaraĂł lhe deu o nome de Zafenate PanĂ©ia, que significa "Salvador do Mundo". AĂ­ entĂŁo, ele foi elevado Ă  posição de governador do Egito. Assim como Jesus foi exaltado pelo Pai e recebeu um nome que Ă© sobre todo nome, passando a ter todo o poder nos cĂ©us e na terra (Fp.2:9 Mt.28:18). Acima de JosĂ© sĂł havia FaraĂł. Acima de Cristo, sĂł o Pai. JosĂ© comprou para FaraĂł toda a terrra do Egito. Jesus comprou com o seu sangue todos aqueles que serĂŁo salvos. "Porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda a tribo, e lĂ­ngua ,e povo e nação." (Ap.5:9).


ISAQUE


Sua semelhança com Cristo se deve a dois episódios de sua vida :


1) A experiĂȘncia de MoriĂĄ


A cena de AbraĂŁo levando Isaque, seu Ășnico filho, para ser sacrificado, nos lembra que Deus entregou seu filho unigĂȘnito, Jesus, para ser morto em sacrifĂ­cio. Isaque aceitou resignadamente a decisĂŁo de seu pai e carregou a lenha que serviria para queimĂĄ-lo. Jesus aceitou seu sacrifĂ­cio e carregou a prĂłpria cruz. Ambos subiram um monte para serem mortos. A diferença se dĂĄ no desfecho das histĂłrias. Isaque foi poupado. Jesus foi morto de fato.


2) Casamento


Em GĂȘnesis 24 temos um relato que serve como base para se pregar sobre a trindade divina. AbraĂŁo representa o Pai; Isaque, o Filho; Eliezer simboliza o EspĂ­rito Santo. Eliezer foi enviado Ă  terra natal de AbraĂŁo para buscar a esposa de Isaque - Rebeca - que tipifica a igreja, noiva de Cristo.


O CARNEIRO QUE SUBSTITUIU ISAQUE NO HOLOCAUSTO


Quando Abraão ia sacrificar Isaque, Deus não o permitiu. Ao levantar seus olhos, Abraão viu um carneiro embaraçado pelos chifres. Tomou-o e o sacrificou em lugar de seu filho (Gn.22:13). Conforme o texto nos mostra, o carneiro foi providenciado por Deus para que Isaque fosse poupado e, ainda assim, o sacrifício fosse realizado.


A justiça divina exige que todo pecado tenha a devida punição. O sacrifĂ­cio pelo pecado da humanidade nĂŁo poderia deixar de ser efetuado. Todos nĂłs morrerĂ­amos eternamente em conseqĂŒĂȘncia do nosso pecado. Entretanto, a providĂȘncia divina preparou um cordeiro, Jesus, que foi morto em nosso lugar a fim de nos dar a vida eterna (Jo.1:29).


MELQUISEDEQUE


Este era rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo. O escritor da carta aos Hebreus traça uma analogia entre Melquisedeque e Cristo. O paralelo se faz em torno da questão do sacerdócio de ambos e principalmente pelo fato de que nem um nem outro pertencia à tribo de Levi, que ainda não existia e de onde, deveriam, segundo a lei, vir os sacerdotes. Além disso, a omissão sobre origem, genealogia e morte de Melquisedeque, då uma impressão de eternidade do personagem, relacionando-o, assim, à eternidade de Cristo. Melquisedeque era rei de Salém, que era o antigo nome de Jerusalém. Jesus é o Rei dos reis e a sede do seu governo serå a Nova Jerusalém. Melquisedeque ofereceu a Abraão pão e vinho. Jesus ofereceu aos discípulos pão e vinho quando instituiu a ceia.


JUDÁ


Ao abençoar seus filhos, JacĂł disse que JudĂĄ Ă© um leĂŁozinho e dele nĂŁo se arredarĂĄ o cetro. Ele amarrarĂĄ o seu jumentinho e lavarĂĄ suas vestes no vinho. Tal pronunciamento foi uma profecia surpreendente em forma poĂ©tica. No Novo Testamento, Jesus se encaixa nessa profecia como a mĂŁo que entra numa luva feita sob medida. Ele Ă© o LeĂŁo da tribo de JudĂĄ (Ap.5:5) que regerĂĄ as naçÔes com cetro de ferro (Ap.12:5). Cristo entrou em JerusalĂ©m montado em um jumentinho. Quanto a lavar as vestes no vinho, isso representa sua morte e o derramamento do seu sangue. O lavar nos dĂĄ margem para pensar no poder purificador do sangue de Jesus. AĂ­ poderĂ­amos questionar : por quĂȘ suas vestes precisariam ser lavadas? Teriam elas alguma impureza? A Ășnica explicação que encontramos foi relacionar as vestes ao corpo, ou seja, o sangue foi derramado para purificar aqueles que fariam parte da igreja, que Ă© o corpo de Cristo.


No texto de GĂȘnesis 49, hĂĄ um trecho misterioso : "... atĂ© que venha SilĂł; e a ele se congregarĂŁo os povos." O nome SilĂł parece ser uma referĂȘncia a Cristo. Na parte que diz "a ele se congregarĂŁo os povos", nĂŁo estĂĄ bem claro se o pronome reto "ele" se refere a JudĂĄ ou a SilĂł. De qualquer forma, nĂŁo temos dĂșvida de que a Cristo se congregarĂŁo os povos, "segundo o beneplĂĄcito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estĂŁo nos cĂ©us como as que estĂŁo na terra." (Ef.1:9-10).



APÊNDICE

AS DUAS SEMENTES

GĂȘnesis 3:15 "E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirĂĄ a cabeça, e tu lhe ferirĂĄs o calcanhar."

O texto acima apresenta a primeira profecia sobre a vinda de Cristo. A serpente representa SatanĂĄs. Veja tambĂ©m Apocalipse 12.9 e II CorĂ­ntios 11.3. SatanĂĄs significa adversĂĄrio. Note que a "inimizade" jĂĄ estĂĄ embutida no seu nome. Embora ele jĂĄ existisse hĂĄ muito tempo, nĂŁo havia nenhuma relação entre aquele ser angelical e o ser humano. A partir de GĂȘnesis 3, passou a existir a inimizade entre ambos. A prĂłpria mulher, que acabava de ser vĂ­tima do Diabo, produziria a destruição do mesmo, porque atravĂ©s dela haveria de vir aquele que venceria o diabo. Por isso a palavra "semente" Ă© importante. Nesse contexto, "semente" significa "descendĂȘncia". Existe uma versĂŁo bĂ­blica que usa a palavra "descendente" em lugar de semente. Tal tradução deixa mais clara a profecia messiĂąnica. É fundamental observarmos que o texto fala de duas sementes, ou seja, duas descendĂȘncias: uma semente bendita e uma semente maldita. A "tua semente" refere-se Ă  semente do diabo. A "sua semente" refere-se Ă  semente da mulher. Uma descendĂȘncia abençoada e uma descendĂȘncia amaldiçoada. Entendo que aĂ­ estĂŁo os filhos de Deus e os filhos do diabo. Essas duas descendĂȘncias sĂŁo espirituais e nĂŁo carnais. Elas estĂŁo bem representadas em toda a bĂ­blia e tem um relacionamento de inimizade constante. Logo no capĂ­tulo 4 de GĂȘnesis, jĂĄ surgem os dois primeiros representantes: Caim representando a semente maligna e Abel, a semente benigna. VocĂȘ jĂĄ sabe o que aconteceu. Logo depois nasceu Sete para dar continuidade Ă  semente da benção. Vamos dar mais alguns exemplos: Isaque e Ismael; JacĂł e EsaĂș; Davi e Saul, etc. Durante toda a histĂłria, as duas descĂȘndencias caminham juntas como o trigo e o joio que crescem juntos. No Novo Testamento, JoĂŁo Batista e Jesus chamaram os fariseus de "raça de vĂ­boras" (Mt.3.7 e 23.33). O que Ă© isso??? Uma descendĂȘncia de serpentes. Observa-se entĂŁo uma ligação com a semente da serpente, mencionada em GĂȘnesis 3. No ĂĄpice dessa representação genealĂłgica temos a relação entre Jesus e Judas.

"Esta te ferirĂĄ a cabeça e tu lhe ferirĂĄs o calcanhar." Esta frase mostra que haveria um confronto entre as duas sementes, ou mais especificamente, entre o diabo e Cristo. O Senhor Jesus seria ferido nesse combate. Vemos que ele realmente foi ferido quando esteve aqui no mundo. Contudo, esse ferimento foi comparado a um golpe no calcanhar. Isso mostra claramente qual Ă© a posição do diabo em relação a Cristo e em relação Ă  igreja. JĂĄ que ele estĂĄ debaixo dos nossos pĂ©s, a Ășnica parte que ele consegue atingir Ă© o nosso calcanhar. Ele fez assim com Cristo. Veja tambĂ©m os textos de Lucas 10.17-19 e Romanos 16.20.

É verdade que Cristo seria ferido, pois assumiria o nosso lugar e a nossa culpa, mas, ao mesmo tempo, ele esmagaria a cabeça do diabo. Por que a cabeça? Como disse o Pr.Wanderley Miranda, calcanhar ferido tem cura, mas cabeça esmagada nĂŁo tem. Isso significa que a derrota de SatanĂĄs Ă© definitiva, irreversĂ­vel. A interpretação aqui apresentada tem grande aceitação entre os estudiosos da BĂ­blia.

Indo um pouco alĂ©m, a "mulher" do texto, que Ă© uma referĂȘncia a Eva, talvez possa tambĂ©m ser interpretada como um sĂ­mbolo da igreja, que haveria de esmagar satanĂĄs sob seus pĂ©s.

Falamos de duas sementes. Talvez isso esteja tambĂ©m relacionado Ă s duas descendĂȘncias mencionadas em GĂȘnesis 6.2.

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